quinta-feira, 16 de novembro de 2017

42. Um Conto de Família



Se preferir, você também pode ler este texto em formato PDF (por ora, é o único formato com o qual trabalho), e que você pode baixar aqui (no mediafire).

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Aviso: Este conto é uma cortesia. Você é livre para ler e compartilhar livremente com quem você quiser, e assim mais pessoas conhecerão meu trabalho. Também é livre para apontar possíveis erros, de maneira civilizada, para que eu possa atualizar o texto com as devidas correções. Recomendo apenas que não tente se apropriar da autoria deste conto, distribuindo sem me dar o devido crédito, e que não tente ter, de alguma forma, algum ganho sobre este material GRATUITO e que não é de sua autoria. Que, por favor, o bom senso e o bom caráter prevaleçam. Grato.
No mais, bem-vindo ao meu mundo da imaginação, apesar de esta não ser exatamente uma história muito longe do que acontece no chamado mundo natural.

Itanhaém, 16 de Novembro de 2017.
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Um Conto de Família
Por Rodrigo Rufino


Boa noite, Jonas.
Oi, André. Como vai?
Bem. Quero dizer, só meio cansado.
Também teve um dia cheio? Bom, vamos sentar aqui fora, meu amigo. Lá dentro está muito abafado. Além disso, a lua está muito bonita esta noite, não acha?
Sim, está.
Muito bem.
...
Então... Muito obrigado por ter vindo.
Sem problema. Sabe que pode contar comigo sempre que precisar. Sabe que me preocupo com você.
Sei, sim.
Mas, ainda não estou entendendo o que...
Calma! Calma! Já chego lá! Eu só queria fazer o meu pedido antes de começar a falar. Estou faminto.
Também estou. Estava quase indo jantar na hora que você me ligou. A Ana Maria até se irritou um pouco com isso. Acho que ela soube logo de cara de que se trataria de um problema.
Desculpe.
Sem problema. Era fígado acebolado.
Certo.
Não me entenda mal. Até gosto de fígado acebolado, mas não do fígado acebolado da minha esposa. Você sabe, Ana Maria nunca teve um talento especial na cozinha. Um tanto irônico, não acha?
Sim.
E como hoje estou muito cansado para cozinhar...
Imagino.
Nem imagina o caos que foi hoje. Parece que todo mundo na cidade resolveu ficar doente! Todos ao mesmo tempo. Foi um dia muito longo. Enfim... Acho que também vou pedir alguma coisa. Deixe-me ver...
E como anda a Ana Maria?
Bem. Muito bem, aliás. Ela conseguiu aquele emprego de fotógrafa. Começa na segunda. Mas, veja só... Veja só que lugarzinho mais salgado! Um hamburguezinho metido a besta custando quase o triplo de um gigante daquele podrão lá perto de casa!
Verdade. Em compensação, o chope daqui vale a pena. Que tal?
É uma boa ideia.
Depois a gente come alguma coisa.
Certo.
Hei!
Já estou indo aí, senhor. Só um minuto.
...
...
Boa noite, senhores. O que vão querer?
Dois chopes, por favor.
Certo. Mais alguma coisa? Algo para comer?
Depois. Bom, só se você quiser também uns petiscos, André. Que tal? A gente pode começar com uns bolinhos apimentados.
Pode ser.
Uma porção grande, por favor.
Certo. Mais alguma coisa?
Só isso, por enquanto.
Certo. Volto logo. Com licença, senhores.
Então... Obrigado por ter vindo.
Já te disse, Jonas. Me preocupo muito com vocês.
Com vocês... Assim, no plural? Quer dizer que... Você já sabe que...?
Sim, a sua esposa também me ligou. Logo depois de você.
Merda!
Pois é. E não foi nada fácil sair de casa, se quer saber. Tive de esperar Ana Maria voltar na cozinha para desligar o fogo.
Amélia te disse que eu...?
Que você o quê?
Nada.
...
Eu... Ela parecia bem?
Sim, perfeitamente normal. Só me pareceu muito preocupada.
E o que foi que ela te disse?
Ela só quis saber se você estava lá em casa e eu disse a ela que eu não o via há dias. E, como eu já te disse, ela me pareceu muito preocupada. Também estou. Tenho notado que as coisas não andam muito boas entre vocês.
É.
Aliás, ela também me disse que todos estão preocupados com você. Sua família. Até seu filho. Ele também falou comigo.
Eles querem me pegar.
Desculpe. Não te ouvi direito.
Eles querem me internar. Num asilo para loucos, eu acho.
E o que te faz pensar isso?
Porque eles sabem o que eu sei. Eles sabem que eu sei qual é o esquema deles.
E qual é o esquema deles?
Com licença. Essa cadeira está ocupada?
Não, não. Pode pegar.
Obrigada.
...
E então, Jonas? O que está acontecendo?
...
Jonas!
Desculpe.
O que é que você tanto olha para cima?
Dê uma olhada, André. Está vendo aquilo ali? Ali! Aquele pontinho perto da lua. Está vendo?
Não estou vendo nada.
Ah! Tudo bem.
...
Tudo bem. Esquece. É só um avião.
E então?
Bom, há um bom tempo que eu venho notando um comportamento muito estranho neles, sabe? Em todos eles.
Que tipo de comportamento?
Bom, eles não agem como se fossem os mesmos de sempre, entende? Desde quando eu comecei a passar mais tempo em casa, eles simplesmente foram se transformando. Gradualmente. Aquelas pessoas lá em casa... Aquelas pessoas... Bom, eles não são quem aparentam ser.
Não estou entendendo.
Eu acho que... Antes, eu te peço para não rir de mim.
Estou cansado e preocupado demais para rir de qualquer coisa.
Muito bem, então. Estou achando que eles são todos impostores.
...
Como assim?
Com licença, senhores. Aqui estão os chopes. E os petiscos.
Ótimo. Muito obrigado.
Obrigado.
Disponham. E caso queiram mais alguma coisa, vocês sabem, é só me chamar pelo nosso aplicativo. Bem mais prático, não acham?
Certo. Obrigado pela dica.
...
E então?
Antes, um brinde!
Certo.
À nossa amizade!
Por dias melhores!
...
Bom, você vai me contar exatamente o que está acontecendo, ou vai ficar me enrolando a noite toda? Que papo é esse de impostores?
Sim, eles são impostores. Sósias, melhor dizendo. Se vistos de perto, eles podem até te enganar muito bem, já que são muito parecidos com a minha família de verdade. São imitações até que bem feitas, mas a mim não enganam. Eu consigo perceber muito bem que há todo um vazio por baixo da pele.
Que papo de maluco da porra...
Você tinha me dito que não ia rir de mim.
Mas não estou rindo, estou? Só estou achando esse seu papo muito do esquisito.
Também não acredita em mim, não é?
Também? Quer dizer, então, que tem mais alguém que sabe desta história?
Sim, o padre Bento. Eu falei com ele hoje de manhã.
E o que ele acha?
Ah, você sabe, crises conjugais são muito comuns num confessionário. Foi isso que ele me disse. Ele também me disse que eu deveria rezar mais a favor de minha própria família. Interceder por ela.
Que o padre me perdoe, mas não acho que isso seja suficiente.
Sim. Mas ele também não parece entender que a minha família não existe mais.
...
Eu sei que não estou ficando louco. Eu sei que eles estão fingindo. Essas coisas... Esses seres... Eles vestem as peles deles. Falam parecido. Andam como eles andam. Como eles andavam. Mas, eles não são eles.
E quem eles são?
Eu não sei.
E de onde vieram?
Eu também não sei. Bom, tenho uma teoria.
É mesmo?
Sim. Eu acho que eles não são deste mundo, entende? Vieram de fora.
Bom, às vezes, eu também acho que a Ana Maria não seja deste mundo. Ela é maravilhosa demais para ser humana, sendo paciente comigo por todos esses anos.
Muito fofo. Mas, estou falando sério, André.
Eu também, Jonas, eu também. A diferença é que não estou aqui para dizer coisas estranhas sobre a minha família. Você está se ouvindo? O que me diz é puro nonsense.
Eu sabia que não seria uma boa ideia...
...
Você também é um deles.
Espera um pouco aí. O que quer dizer com isso?
Sim! Você também é um deles! Agora eu vejo...
...
Eu sabia! Eu deveria ter desconfiado!
...
Você não é o meu amigo.
Como é?
Você é um grandessíssimo filho da puta!
Opa! Hei! Calma lá!
Algum problema, senhores?
Eu não sei. Algum problema, André?
Eu... Eu vou ficar calado.
Muito bem. Nenhum problema aqui. Peço que nos perdoe. Nós nos excedemos um pouco, só isso.
Tudo bem, senhor. E o que estão achando dos nossos serviços?
Ótimos. Você não concorda, André?
...
Ele disse que sim. Os petiscos estão saborosos. E o chope... Simplesmente, o melhor.
Ficamos contentes com o seu feedback, senhor. Agora, se me derem licença...
...
...
Desculpe.
Eu que te peço perdão. Eu não sei o que deu em mim. Você sabe, estou com muitas caraminholas na cabeça. Tanta coisa acontecendo...
Sei.
O bolinho está realmente bom, não acha?
Sim, bonzinho.
Licença, chefe.
Pois não?
Desculpe incomodar, mas...
Sim. Eu sei o que você quer. Dinheiro para a bebida, não é?
...
Tome aqui. É tudo o que eu tenho.
Valeu.
Então, onde foi que paramos?
Na parte em que me falou das coisas que fingem ser sua família. Essas coisas que vieram de outro mundo.
Sim. Isso mesmo.
Pode me explicar o que quer dizer com isso? Prometo que não te interrompo.
Muito bem. Tudo começou na noite em que me demitiram. Eu fingi ter saído para ir trabalhar, por vergonha de ter de encarar minha família. Ter de contar que, por algum tempo, o arroz e o feijão não seriam mais acompanhados de bife, salada e fritas. Você sabe que nenhum chefe de família quer trazer más notícias para casa. Bom, eu fiquei sentado lá na pracinha perto de casa. Observando a lua, igualzinha à de hoje. Bem cheia e bonita. Bom, eu havia comprado uma garrafa de conhaque. Levei em minha mochila. Queria beber tudo lá fora antes de entrar. Afogar minha infelicidade com cirrose. Sei lá. Parecia ser uma boa ideia. Você sabe que eu não tinha o hábito de beber, mas comecei a beber pra valer naquela noite. Em partes, eu acho que qualquer um teria visto alguma coisa por causa deste hábito tardio. Então derramei o inferno na minha garganta. Desceu queimando, mas continuei mesmo assim. Meia garrafa depois, e eu vi...
...
Bom, eu vi luzes no céu. Luzes que se moviam perto da lua. Luzes brancas, vermelhas e azuis. Grandes, mesmo vistas de longe. E elas se moviam sem um padrão de movimentos, entende? De lá para cá, então de volta ao seu ponto de origem. Ou, pelo menos, ao mesmo ponto em que as vi primeiro. E elas sobrevoavam a minha casa. E só a minha casa. Ficaram sobrevoando por uns cinco, dez minutos, talvez mais. E aí desceram em direção à laje. Tocaram a laje e sumiram.
...
Você consegue imaginar, André? Consegue imaginar uma cena dessas? Eu tive de voltar correndo para casa. Quando cheguei lá, não encontrei luzes alienígenas, mas encontrei uma família que não era a minha. Encontrei pessoas que não são pessoas. Eu via máscaras distorcidas de pessoas que eu pensava conhecer tão bem. Os mesmos rostos, mas com essências muito diferentes das originais.
...
Eu sei que, em partes, a bebida pode muito bem ter confundido meus sentidos. Então...
Só uma pergunta, Jonas.
...
Se me permite te interromper um pouco...
Diga.
É que fiquei pensando aqui... De onde foi que você tirou dinheiro para pagar a sua parte na conta, se está desempregado?
Fale baixo. Ninguém mais precisa saber.
...
Bom, é que eu pensei que você... Bom, você sabe...
...
Relaxe! Estou só brincando. Não se preocupe com isso.
Tudo bem. Prossiga.
Temos algumas reservas, é isso.
Ah, sim.
Digo, a Coisa-Amélia que tem algumas reservas. Enfim... Amélia me olhou horrorizada, do mesmo jeito que eu olhei para ela. E ainda me perguntou o que é que eu estava fazendo lá. E minha filha, igual à mãe, ela também quis saber o que eu fazia em casa. Não deveria estar no trabalho? O menino só me olhava, com aquele sorrisinho debochado de sempre. Bom, ele nunca ter me respeitado como pai nunca foi, assim, um grande segredo de Estado. Ele sempre exigiu de mim uma firmeza que nunca tive. Ou sempre fez um tipo, eu não sei ao certo. Esses aborrecentes... Você sabe como eles são. Gostam de nos desafiar, até quando não merecemos. Passa aí molho de pimenta, por favor.
...
Enfim... As duas mulheres da casa me interrogavam sobre como seria a nossa vida a partir daquele dia. O seguro-desemprego bastaria por algum tempo, e logo eu teria um novo emprego. Não sei de quê, mas teria. Eu daria um jeito. Mas, essas coisas que fingem ser minha esposa e minha filha, e meu filho, elas sabem como sugestionar um homem. Elas me encheram de perguntas que eu não estava a fim de responder. Blábláblá.
...
Nossa! Esse molho é forte demais!
E olha que esse bolinho já é apimentado. Não aguento comer muito disso.
Sim. Então... Eu estava me sentindo ameaçado, entende? Eu me sentia como se, a qualquer momento, eu fosse ser devorado. Talvez fosse a bebida falando em minha cabeça, talvez fosse por causa do que vi quando estava na pracinha, mas eu me senti muito confuso e, de repente, muito furioso. E aquelas coisas entravam em minha cabeça e me vampirizavam com suas perguntas sobre o futuro. Meu cérebro parecia que ia explodir. Tive de tomar conta da situação.
...
Então derrubei Amélia no chão e fiz Jéssica chorar. Lágrimas de crocodilo. Ela nunca foi muito de chorar. E Lucas, que eu nunca soube ser de briga, e quanto a isto eu vou dar um pequeno crédito a ele, o Lucas veio para cima de mim, mas eu o derrubei logo, com um belo soco na cara. Não tenho orgulho do que fiz, caso esteja se perguntando. Fico pensando na dor que eles sentiriam se fossem as pessoas que eu costumava conhecer, entende?
Sei.
Se fossem humanos.
...
Tive de fazer alguma coisa, ou teria sido devorado. Ou algo muito pior. Essas coisas não falam exatamente como minha família falava. Só usam as mesmas vozes. Então, para cada vez que sinto uma pergunta inconveniente vindo, eu tenho de me impor. É como tem sido ultimamente. Para cada atitude suspeita, eu tenho de me impor. Por exemplo, toda vez que Amélia queima a comida, mania que a original não costumava ter...
Meu Deus!
Eu tenho de me impor, André. Eles não estão sendo eles mesmos, ainda não entendeu? Para começar, eles nunca me enchiam de perguntas, principalmente quando eu estava cansado. Eles sempre comeram e beberam do meu suor e nunca reclamavam de muita coisa.
Eu sei, mas...
Com o tempo, eles até pararam um pouco de tentar invadir minha mente. Mas agora eu consigo ver o brilho sumir de seus olhos. O garoto, que antes me chamava pelo nome, de um jeito bem impessoal mesmo, agora me chama de senhor. Sua voz treme toda vez que me dirige a palavra. Isso porque escolhi que me temessem antes de temê-los. Por algum tempo, essas coisas me deixaram em paz, mas também nunca mais conseguiram manter seu disfarce perto de mim. Consigo vê-los como são. Aberrações.
...
Pois é. Sei o que deve estar pensando. Parece ficção científica ou qualquer coisa daquele programa no rádio, não é? Mas estou te contando uma verdadeira história de horror, meu amigo. De certa maneira, viramos reféns uns dos outros dentro de casa. Mesmo que eu precise usar meus punhos quase todos os dias, não estamos numa guerra física, mas num embate mental. Psicológico. Entre mim e aqueles parasitas mentais, cobrando de mim tudo o que não podem me oferecer em troca. Ingratos! Eles têm o poder sobre a mente, esses vampiros cósmicos de energia humana...
Isso, sim, me parece coisa de ficção científica.
Mas eu ainda tenho meus punhos. E eles me temem por isso.
...
Mesmo assim, eles ainda estão em maior número.
...
Eles estão conspirando.
Sério?
Sim. Sabe aquilo que eu te disse sobre quererem me internar?
Ah, sim.
Então... Eles têm pensado muito a respeito. Ouço murmurarem sobre o que querem fazer comigo. E eu tenho certeza de que leem mentes e sabem que eu sei de seu esquema, mesmo fingindo que não. Mesmo parando de falar sempre que notam a minha presença. Sabe o que eu acho? Eles querem me fazer passar como o louco da história.
Entendo.
Estou com medo, André. Tenho medo do que podem fazer comigo.
...
Não quero mais ter de voltar para aquela casa. Eu queria poder fugir para bem longe.
...
Vou te contar o que eu tive de fazer. Eu precisei trancar todos eles lá e sair correndo pra vir aqui. Pra que eles não viessem atrás de mim.
Não sei se quero ouvir mais sobre isso.
Mas, penso que... Se Amélia não tentou te pedir ajuda pelo telefone, isto só prova que ela realmente não está em seu estado normal. Se bem que ela pode muito bem ter ligado para a polícia, é claro. Mas eu não acho que essas coisas queiram atrair a atenção das outras pessoas, se puderem evitar. Estariam se arriscando demais.
Você realmente precisa de ajuda.
Sim. Preciso, sim. Mas eu não sei mais a quem recorrer. Eu não sei mais aonde ir. Só tenho você agora, meu amigo.
...
E ainda assim, eu corro perigo. Porque as pessoas nunca acreditarão na minha história. As demais pessoas, quero dizer. As pessoas ordinárias.
Sei.
Elas dirão que tudo não passa de delírios de um alcoólatra. E o álcool tem sido mesmo a minha única fuga. O demônio na garrafa, eles o chamam. Eu queria querer parar de beber, mas o inferno me chama para dentro da garrafa. Grita meu nome. É na garrafa que encontro um esconderijo para a mente e os sentidos. Já que eu tenho de estar no inferno, prefiro ser o demônio que governa o inferno de minha escolha, mesmo com as ressacas constantes. De qualquer modo...
Que papo é esse agora? Já ficou bêbado?
Desisto.
Você ainda não está me dizendo coisa com coisa, Jonas.
Porra, eu pensei ter ouvido você me prometer que não iria mais me interromper. E, para sua informação, eu não fico bêbado só com uma canequinha dessas.
É só que... Numa única noite, você já falou em alienígenas, e agora você me vem com esse papo estranho sobre demônios.
Só não quero ter de me submeter o tempo todo ao inferno em que minha casa se transformou, entendeu? Tendo de viver ao lado daqueles estranhos com intenções secretas. Prefiro fugir daquelas figuras apagadas e vazias que, só de olhar para elas, eu sinto vontade de chorar. E isso só me enfurece cada vez mais. O álcool é o que ainda me distancia dessas coisas. E meus punhos, é claro.
...
...
Você ouviu o que aquele cara disse? Um absurdo!
Ouvi. Ele tá ferrado.
Horrível. Aquele vestido não combinou nem um pouco com os sapatos dela.
E não só com os sapatos.
Ah! Ah! Ah!
Se eu fosse ela, não deixaria aquele homem fazer isso.
Quem te disse que eu queria aquele emprego?
Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah!
Daí ele me olhou nos olhos e eu olhei para ele...
Um monstro! Enorme! Não sei como foi que aguentei...
Eu acho que ele está pirando...
Tenho é certeza.
Ah! Ah! Ah!
Blábláblá...
...
...
Não vai terminar seu chope?
Pode ficar. Se quiser, pode até ficar com os bolinhos. Meu estômago não está muito bom hoje.
Peça outra coisa, se for o caso.
Não. Vou fechar a boca.
Então... Você acredita em mim, André?
Em que sentido?
Em tudo.
Bom, acredito que as coisas estejam fora do lugar entre vocês.
...
E também posso acreditar que algo aconteceu e mudou tudo. Desestabilizou todas as coisas. Que todos eles se transformaram em outras pessoas. Que não são mais os mesmos. Que eles foram levados ou esvaziados, eu não sei ao certo. E pode crer que acredito quando me diz que sua família não existe mais.
Eu sabia que podia contar com você.
...
Mas... Tem algo mais que você quer muito me dizer, não é? Consigo ver isso em seu rosto. Eu te conheço bem.
...
Você é meu amigo. Pode falar.
Bom, eu bolei umas teorias interessantes aqui, todo esse tempo que passei te ouvindo. Dariam até uma boa reviravolta nesta história. Poderia ficar mais e explicar tudo com mais calma, em detalhes. Mas Ana Maria já deve estar muito preocupada. E meu celular acabou de morrer. Preciso ir nessa.
O quê?
Aqui está a minha parte.
Qual é a pressa? Então diz logo, porra!
Não sei se você aguenta a verdade, Jonas.
Sim, aguento. Fique mais um pouco.
...
Vamos! Senta aí e me conta.
Muito bem...
...
Muito bem, lá vai.
...
Já pensou na possibilidade de que eles continuam sendo os seres humanos que sempre foram, mas consumidos e esvaziados pelo medo?
...
E digo mais. Já pensou na possibilidade, meu caro amigo, de que você é quem tem sido o único impostor entre eles? Talvez você tenha negado isso a si mesmo esse tempo todo. A possibilidade de ter sido abduzido, e substituído por um sósia. Não sendo mais aquele que costumava ser. São muitas possibilidades.
...
Talvez você seja mesmo o louco desta história.
...
...
...
...
É... Eu acho que vou pedir uns nachos. Vai querer também?
Não.
...
...
Pois não, senhores?


Itanhaém — SP, Agosto de 2017


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